Este é um texto sobre a tentativa de golpe de estado contra o presidente Hugo Chavez, da Venezuela, ocorrido em abril de 2002.
A primeira notícia que ouvi foi no rádio. Algo como "crise institucional na Venezuela". O prórpio locutor não parecia ter muita certeza do que acontecia na Venezuela na manhã de sexta-feira, 12 de abril, mas parecia que o presidente Hugo Chavez havia renunciado. Uma pessoa entrevistada pelo rádio expressou que esperava dias melhores para a Venezuela, com a renúncia.
Com a notícia do rádio, fui trabalhar. Conversei com um colega sobre a crise e soubemos que um senhor chamado Pedro Carmona havia assumido. Pedro Carmona, ficamos sabendo, era um líder empresarial. Comentei com o meu colega que era estranho aquilo, como assim, "um líder empresarial assumiu"? Crises institucionais e políticas em qualquer estado relativamente organizado seguem um determinado ritual, o poder vai para um vice-presidente, ou um líder do poder legislativo, ou alguma alta autoridade da justiça. Não fazia muito sentido uma liderança da sociedade civil assumir a presidência. Alguma coisa não fazia sentido naquilo.
Aos poucos outros coisas foram surgindo. Primeiro familiares do presidente Chavez informando que ele não havia renunciado. De fato, a "carta" de renúncia não apareceu, muito embora algumas autoridades afirmassem que ela logo seria mostrada ao mundo.
Depois o presidente Carmona mandou dissolver a Assembléia Nacional, poder legislativo do país, e também a mais alta corte de justiça. Informou que haveria eleições legislativas no final do ano e eleições presidenciais em cerca de um ano, mas sem especificar datas. Aquilo estava com cara de golpe de estado...
Mais paradoxal ainda foi que houve uma reação. Se o golpe havia sido dado após uma grande manifestação da oposição, pelas ruas de Caracas, até o palácio presidencial, onde houve um tiroteio no qual morreram alguns manifestantes; os partidários e eleitores do presidente Chavez também realizaram manifestações a favor deste. Depois se confirmou que Chavez foi preso sem que tivesse realmente renunciado. Além disso, nenhum país do continente reconheceu o novo governo, e este ficou isolado internacionalmente. Encalacrado nesta saia justa, o presidente golpista Carmona devolveu o poder ao vice-presidente eleito. O presidente deposto, Chavez, foi libertado e levado de volta ao palácio presidencial onde reassumiu seu mandato.
As notícias que chegam da Venezuela mostram uma sociedade bastante dividida entre os poucos ricos e remediados, e muitos pobres, com poucas esperanças de melhorar de vida. Chavez foi eleito prometendo melhorar a vida destes. Para fazer isso afrontou os interesses dessa elite rica e da classe média do país. O empresariado em geral e os donos dos meios de comunicação em particular lhe faziam oposição, e incentivaram fervorosamente a manifestação que culminou no golpe. Após ser reempossado Chavez fez um pronunciamento pela televisão e chamou a oposição a um diálogo. Uma sociedade dividida não precisa terminar em golpe de estado. Deve haver meios de corrigir esta situação, embora eu compreenda que seja mais simples exortar do que fazer isso.
E o surto do nosso título?
Bem, assim como o golpe de estado foi se revelando aos poucos, pequenos fatos foram sendo noticiados simultaneamente. Coisas aconteceram...
Por exemplo, no Brasil temos quatro revistas semanais de notícias importantes, pelo seu volume de vendas são Veja, Época, IstoÉ, e Carta Capital. Pois bem, as duas maiores deram capa à crise venezuelana. Veja (edição de 17 de abril de 2002) noticiou "a queda do presidente fanfarrão" na capa, e no interior mancheteia "O Falastrão Caiu", em uma reportagem cheia de adjetivos desabonadores, mas sem explicitar um golpe de estado dando fim a uma continuidade jurídico-institucional de 50 anos. Já a revista Época (edição de 15 de abril de 2002) coloca Chavez na capa ao lado de uma série de ex-presidentes latino-americanos: Fernando de la Rúa, da Argentina; Alberto Fujimori, do Peru; Jamil Mahuad, do Equador; e Raul Cubas, do Paraguai. O problema dessa capa é que ela é enganosa ao colocar cinco eventos históricos, cada um com uma natureza diferente, numa mesma capa, se não, vejamos. Raul Cubas deixou a presidência e o próprio Paraguai em crise decorrente do assassinato de seu vice, em uma conspiração na qual suspeitava-se, o próprio Cubas estaria envolvido; fugido o presidente, morto o vice, assumiu um líder do legislativo que continua na presidência até o momento em que escrevo. Mahuad, do Equador, seria o presidente que enfrentou a crise mais parecida com a venezuelana, mas ainda assim diferente; ele renunciou na sequência de um levante indígena e militar que se seguiu à dolarização do país; seu vice assumiu. Alberto Fujimori fugiu do Peru sob denúncias de corrupção e fraude nas eleições que havia vencido para um terceiro mandato; o segundo colocado na eleição foi empossado. Fernando de la Rua, da Argentina, renunciou após manifestações em Buenos Aires, contra suas tentativas de aumentar impostos, reduzir salários e benfícios de aposentados para que o país conseguisse manter a paridade cambial de 1 peso para 1 dólar; ele renunciou, o seu vice já havia renunciado antes por discordar da política econômica que o presidente vinha seguindo, e o congresso nomeou um novo presidente. Vê-se assim que os gatos não pertenciam todos ao mesmo balaio. Época tem a seu favor, na edição seguinte (22 de abril de 2002), o fato de fazer um meia "mea culpa", por talvez ter se precipitado um pouco.
Como eu já disse, o isolamento internacional foi fundamental para o fracasso do golpe de estado. Começando pelo Brasil, ninguém reconheceu o novo governo. Eu comentei isso com um professor do curso de História na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e achamos que o continente evoluiu, quando me lembrei que no final da década de 70 (século XX) o governo constitucional da presidente Lídia Gueiler na Bolívia, foi deposto num golpe prontamente reconhecido por Estados Unidos e Brasil na época.
Ninguém reconheceu o novo governo, mas o governo do presidente George Walker Bush parece que esteve bem perto disso. Logo após a reação, a assessora Condoleezza Rice disse que "Chavez deveria tirar lições do acontecido". É um conselho interessante, levando-se em conta que em um golpe de estado lealdades são traídas, amizades destruídas, relações de confiança quebradas e construídas. Não se falou em condenar o golpe, manter a democracia. Mais tarde ficou-se sabendo que a diplomacia norte-americana trabalhou no sentido de legitimar o golpe e só voltou atrás quando viu que ia "pegar mal". Essas informações podem ser conferidas na revista Carta Capital(edição de 24 de abril de 2002), e no editorial da Folha de São Paulo(16/04/2002). Como o próprio editorial da Folha diz, isso leva a diplomacia a regredir aos tempos pré-presidente Carter aonde não importava a forma de governo, mas se este era alinhado (ou subserviente) aos interesses dos Estados Unidos.
O surto do título também pode ser visto na atitude do porta-voz do FMI, Thomas Dawson, que ofereceu imediata ajuda do Fundo ao novo governo, naquilo que o novo governo viesse a precisar. O mesmo Fundo que permanece impassível diante da crise econômica da Argentina.
Ainda devemos dizer que o respeitado economista Jeffrey Sachs, consultor do Banco Mundial, e que assessorou governos na criação de planos econômicos, se manifestou "maravilhado" com o golpe. O banco de investimentos Merrill Lynch informou melhora no panorama econômico da Venezuela. O preço do petróleo caiu no mercado internacional.
Se o pensador Francis Fukuyama preconizava o "Fim da História" há dez anos atrás e isso significava que todos os países convergiriam para a economia de mercado(capitalismo) e a democracia representativa; parece que já há gente pensando que o mundo pode prescindir desta última.