Porto Alegre, 20 de maio de 2002.
"Porque tudo que dantes doi escrito, para nosso ensino foi escrito, para que pela paciência e consolação das Escrituras tenhamos esperanças."
Romanos 15:4.
Caro Pastor,
Estou escrevendo porque adorei a sua reflexão de quarta-feira passada, baseada na história da mulher cananéia, narrada em Mateus 15:21-28 (o evangelho de Marcos - Mc. 7:24-30 - a chama de fenícia). Gostei principalmente da sua palavra sincera, para as 12 ou 13 pessoas que assistiam ao culto de oração naquela noite chuvosa, de que o irmão nunca havia pregado sobre esse texto antes porque ele, à primeira vista, à primeira leitura, pode chocar, na reação inicial de Jesus ao pedido da mulher.
É. Há alguns textos na Escritura que podem, num primeiro momento, chocar. Já ouvi falar de um seminarista que ficou chocado com o livro todo do Eclesiastes. Isso me leva para a palavra que o irmão enfatizou na pregação - fé. Sem fé a Bíblia é apenas um monumento literário. Para quem tem fé, ela pode ser um saboroso monumento literário, mas acima de tudo indica o caminho.
Foi um enigma para mim o porquê o irmão citou, mas não enfatizou o texto de Hebreus 11:6 : "Ora, sem fé é impossível agradar a Deus: porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus, creia que Ele existe, e que é galardoador dos que o buscam." Dificilmente qualquer teólogo, nascido ou por nascer, conseguirá ser mais claro e conciso.
Quando ambos estávamos no seminário, o irmão como professor e eu como aluno, o irmão dizia que em Teologia não há ciência pura, como em Biologia. Ninguém pode estudar o "ser puro" de Deus, como um biólogo observa uma molécula ao microscópio. A Teologia só pode estudar as manifestações de Deus, ou seja, o universo criado e a Escritura revelada.
Ora, "nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação, porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo." conforme II Pedro 1:20, 21. Isso nos leva para a natureza das Escrituras. Também seu tema nas aulas de Teologia.
Hoje há homens, crentes sinceros e bem-intencionados, que defendem coisas como infalibilidade e inerrância das Escrituras. Outros que fazem questão de harmonizar fé e ciência com base nas Escrituras, e outros ainda que querem desacreditar as teorias científicas com base no relato do Gênesis.
Hoje isso faz pouco sentido para mim. Confesso que me assustei quando descobri a alta crítica das Escrituras, no início de meus estudos teológicos. Como assim tradição oral mais composição de textos através da aglutinação de documentos com origens diferentes? Não eram apenas o Espírito Santo ditando, e homens copiando? Não. Deus falou muitas vezes e de muitas maneiras conforme Hebreus 1:1. Mas em todas seu Espírito esteve presente, e esse Espírito preservou para nós o que devíamos saber, e nos inspira ainda hoje, e inspirará outros até que Jesus volte.
A Escritura é sobre moral e esperança. A nossa falência moral e o meio que Deus proveu para livrar-nos desse embaraço, por meio do sacrifício de Jesus. A nossa esperança deriva disso. E é essa esperança que nos move, nos dá orientação ética enquanto aqui vivemos, e ainda renova nossas esperanças quando pecamos, desde que busquemos o arrependimento.
Interessante. Nesse ponto do texto vejo que fiquei bastante formal e ortodoxo, embora não fosse esta a intenção original. Eu só queria dizer que gostei do seu estudo e da sua sinceridade. Os homens de fé não são fortalezas inexpugnáveis. São homens que nos momentos de dúvida exercitam sua fé no Salvador, que nos foi revelado pelas Escrituras.
Um abraço.