Tempos atrás li numa revista chamada Conecta, revista de informática popular e já finada, a respeito de neologismos gerados pela tecnologia. O texto falou, por exemplo, do verbo deletar. Deletar já está incorporado ao dicionário Aurélio, portanto já é parte do nosso português brasiliano.
Como sabe a maior parte dos informatas e filotecnólogos, deletar vem do verbo inglês "to delete", e ficou relacionado a apagar caracteres em uma tela de computador, ou remover arquivos de meios magnéticos, sejam eles discos rígidos ou discos flexíveis.
O artigo da revista continuou. O verbo inglês "to delete", derivou do latim "delere". Esse verbo latino - "delere" - gerou também um verbo para língua portuguesa, o verbo delir. Não estranhe se você nunca ouviu falar nesse verbo; ele é pouco utilizado e palavra mais utilizada, derivada da mesma raiz, é o adjetivo indelével, o qual todas as canetas esferográficas dizem ser. A Bic Cristal é uma caneta com tinta indelével.
Consequentemente o verbo está ligado a manchar, borrar, apagar. A tinta é indelével porque não pode delir.
E a conjugação do verbo? Grande questão! Perguntei a várias pessoas e ninguém sabia responder. O máximo de resposta que consegui foi que devia ser um verbo defectivo - aquele tipo de verbo que não possui conjugação completa. A luz veio de uma colega de profissão, a Mirella Bedin, que por sua vez consultou uma amiga formada em letras, cujo nome, se não me engano, é Tereza. O verbo delir é anômalo. Não possui a primeira pessoa do singular - o egocêntrico eu, mas que as demais variações poderiam ser feitas de acordo com o verbo partir. Então:
Eu parto *
Tu partes deles
Ele parte dele
Nós partimos delimos
Vós partis delis
Eles partem delem
Na próxima vez que você for deletar algo, lembre-se que você também pode delir esse mesmo algo, ou simplesmente apagá-lo